Origem da marujada em Quatipuru

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A origem da marujada em Quatipuru não possui documentos históricos conhecidos. Principalmente pelo fato de que, segundo historiadores, os registros do Arquivo Nacional referentes à escravatura, foram queimados por ordem do Ministro Rui Barbosa, em 13 de maio de 1891, para evitar que os escravocratas pedissem indenizações ao governo brasileiro (Lacombe, Américo Jacobina, Silva, Eduardo e Barbosa, Francisco de Assis, Rui Barbosa e a queima dos arquivos, Rio de Janeiro: Casa de Rui Barbosa, 1988). Desse modo, muitos registros sobre a escravidão no estado do Pará foram destruídos também. O que se sabe é fruto de depoimentos orais de pessoas antigas, de famílias tradicionais do município. Segundo essas fontes, teriam surgido aproximadamente em primórdios de 1838, na Ilha do Titica, situada à margem esquerda do Rio Quatipuru, próxima a localidade do Macaco. Lá morava uma senhora de escravos, Sinhá Henriqueta, que seria muito generosa e, atendendo a um pedido de seus escravos, permitiu que os mesmos se organizassem e fizessem o primeiro festejo com cantoria e dança a São Benedito. Assim nas noites Dezembro, iluminadas à base de tochas, deram início ao festejo; esses escravos imagina-se que eram entre 12 a 18 negros, tinham como líder uma senhora por nome Maria Pretinha, reconhecida como a primeira “capitoa” da Marujada Quatipuruense.
Com a abolição da escravatura, em 1888, tudo indica que esses escravos permaneceram pela Ilha do Titica por um longo período, supostamente estiveram por lá até por volta de 1925, à base dessa afirmação vem do senhor Orlando Pereira Borges, nascido em 1940, que por inúmeras vezes em conversa com o senhor Vitôr Lisboa Reis, (nascido em 1895, faleceu em 1990), patriarca dumas das famílias mais tradicionais de Quatipuru, nas rodas de ‘prosa’ com o sábio senhor, o mesmo relatou que muitas vezes, quando rapaz solteiro, precisou trabalhar dobrado para cumpri tarefa de trabalho imposta pelos pais, para ter permissão de ir de canoa de Quatipuru a Ilha do Titica e dessa forma participar dos festejos da Marujada. Outra fonte relevante é do senhor José Maria Pereira Gomes, ex Capitão da Marujada, ainda vivo, de 99 anos de idade, relatou que por volta de 1930, com apenas dez anos de idade, já dançava Maruja, nessa época a marujada era radicada no Tororomba, suposta área remanescente de quilombola, para onde migraram os escravos da Ilha do Titica, acredita-se que por volta de 1925 o festejo da Marujada era celebrado no novo povoado, assim permaneceu até meados dos anos de 1940. Não se sabe ao certo quando apareceu a figura dos juízes da festividade, mas, provavelmente teria sido essa, a razão da mudança da festividade do Tororomba para Quatipuru, nesse período de transição o festejo não tinha um local fixo. O senhor Clóvis Carneiro da Costa, vulgo Codó, nascido em 1931, o barraqueiro vivo mais antigo da Marujada, nos relatou que a cada nova festividade, um novo local, o Juiz da Festividade que fosse escolhido ou ganhasse a responsabilidade do festejo, levava a festa para seus domínios. Geralmente, construía um enorme barracão no seu próprio quintal e realizava o festejo, permanecendo assim até por volta de dos anos de 1950. Como sempre houve cultuação a um santo católico, São Benedito, a igreja católica local, ofereceu um lugar amplo e próximo dos seus domínios, trata-se do local exato onde hoje está instalada a escola paroquial, mas com a necessidade de construção dos aposentos de freiras e sacerdotes, jardim de infância e a própria escola paroquial, houve nova mudança do local da festividade, passando a ser no local onde em dias atuais está instalada a residência da família do senhor Chico Lêta, permanecendo por lá até meados da década de 1970, quando um dos baluartes da festividade, o senhor Pedro Barbosa de Amorin, em comum acordo com os descendentes da Ilha do Titica: Pai Mané, Teúna, Parná, Maria Antonia, Damiana, dentre outros, adquiriram uma área própria. Dessa forma ergueram um novo barracão, já no local exato onde hoje está o atual palco da Marujada. Com a necessidade de ampliação do espaço, por influência do senhor Alair Pragana em 1991, foi construído um novo barracão, que veio a desabar logo após a festividade daquele ano, levantaram um novo espeço em 1992, o qual permanece até os dias atuais.

Foto: Acervo pessoal Alair Pragana
Destaque da foto: Antigo Barracão da Marujada
Registro feito em torno de 1980
Foto: Acervo pessoal Drº João Sérgio.
Arte: Ivaldo Pinheiro
Destaque da foto: Hilda Brandão e a Capitôa ‘Tiodorinha’
Registro feito em torno de 1965

 

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